Por Camillo César Alvarenga e Breno Tsokas. 30/09/2010.
Caruru dos 7 Poetas; desmoronamento do simbólico; Pouso da Palavra; rádio-poesia; mídia nova; editora; um poeta novo; o contemporâneo; linguagens; “coisaescrita”; poemas; poética e política; alternativa; “estado de abertura”; escola; arte; capital; universidade; Kant; John Cage;
C. C. S. ALVARENGA: (...) Enquanto poeta em si, a representação que tem aquele espaço e aquele evento que é ao mesmo tempo uma mística e um outro complexo de produção cultural que a gente tem na nossa região mais especificadamente no recôncavo. Então, assim, como você entende o processo do Caruru dos 7 Poetas desde sua formação e qual é a importância que tem no contexto cultural contemporâneo? E, nesse sentido, quais são os desdobramentos do evento que aconteceu na última apresentação, aquela fuga, que houve...
O. PINHO – O Caruru dos 7 poetas é de importância vital, é um marco. Ele existe há sete anos, e contempla um leque, uma variedade muito grande de expressões nessa área, ele é um marco aqui para Cachoeira. Talvez nesse formato, nessa perspectiva, em que ele se apresenta, ele é único inclusive.
C. C. S. ALVARENGA: – Um evento precioso, para ser vilipendiado...
O. PINHO – Agora a questão da estrutura, da organização é algo a ser pensado. (A gente precisa sair...) Se há um pecado aí, uma falta, se há uma certa precariedade, é em termos de uma melhor organização, estruturação. Um pouquinho de (embora, essa palavra, seja muito carregada) um pouquinho de profissionalismo não faz mal nenhum, de cuidado...
BRENO TSOKAS – Uma direção, um pouquinho só, que direção demais também às vezes...
O. PINHO – Um pouquinho só. Mas é preciso ter um certo norteamento. Resguardar as características, acho muito interessante que seja na praça porque é a Ágora, é a expressão da poesia ocorrendo no espaço público, para todos, e, também, aberto a participação de todos, mas essa participação de todos ela precisa ser equalizada, digamos assim, precisa ter uma boa mediação, para que a coisa que pode ter um caráter de manifestação democrática no sentido pleno, ao invés de ser uma manifestação democrática, transforme-se numa simples ação tumultuada. Aí quebra com o aspecto, mesmo, de compreensibilidade para todos, de compreensão para todos, do aspecto também da vivência comum, de todos naquele espaço, para a poesia; a poesia não pode perder-se por aí.
C. C. S. ALVARENGA – Tem que saber bem por onde anda.
O. PINHO – Porque se vira tumulto você tem uma perda da poesia, o poético se esvai...
B. TSOKAS – A criação poética...
O. PINHO – A criação poética, a sensibilidade poética, a audição poética, a percepção poética.
C. C. S. ALVARENGA – Então, podemos constatar que quando há o esvaziamento daquele espaço que era reservado ao poeta, que era dado ao poeta, um instante de homenagem, de prestígio, de valor, e quando ele abre mão daquele momento acredito que a gente tá de frente, tá diante do desmoronamento do simbólico. Porque, até certo ponto, a necessidade que havia da representação dos poetas, dos sete, do caruru e, como você tem um depoimento sobre o que aconteceu no momento, vai ilustrar bem, como se esvaziou o sentido que aquele espaço deveria ter, acabou...
O. PINHO – É, porque você presume ali, naquele momento, que você convida os sete poetas que estão ali colocados naquele instante que você tem uma certa ritualística. Não no sentido rígido, mas você tem uma certa ritualística e eu acho que a gente não pode deixar que esse aspecto desmorone. Quer dizer, você convida as pessoas para aquele momento, as pessoas se preparam para aquele momento, então, se preparam, justamente, para o encontro, para aquele encontro de poeta para poeta, e, mesmo, no encontro do poeta com o público ouvinte da poesia, as pessoas que foram ali...
C. C. S. ALVARENGA – Consumir esse bem cultural...
O. PINHO – Justamente ao encontro (eu não digo consumir) foram ao encontro da poesia, naquele momento, foram ao encontro da poesia, receberam o chamado, e foram ao encontro da poesia, daqueles poetas. Quando você anuncia poeta x, poeta y, poeta z, várias pessoas foram ali interessadas em ouvir o que aquelas pessoas tinham a dizer, principalmente o que é que aquelas pessoas tinham a dizer. E quando se quebra com isso você cria um sentido de dispersão que faz com que o sentido da coisa se perca, um pouco, muito ou pouco.
C. C. S. ALVARENGA – Há um vácuo...
O. PINHO – No caso ali, estivemos mesmo a beira da entropia, do desentendimento...
B. TSOKAS – Do incômodo.
O. PINHO – E da perda de sentido daquele ritual, Caruru dos 7 poetas. Nesse aspecto o ritual não foi cumprido. Esse último ritual, ele não se cumpriu na sua plenitude e em sua totalidade.
C. C. S. ALVARENGA – (Logo sabemos que o Recôncavo está em dívida com a poesia)
O. PINHO – Esse é um bem precioso, O Caruru dos 7 Poetas, que tem que ser resguardado, preservado, principalmente por seus propositores. Por nós todos, nós desejamos que ele continue. Porque é um evento, que dentro de Cachoeira é uma espécie de ponta de lança, é um espaço aberto para poesia, um espaço que para mim é ponta de lança. Ele é gerado, um pouco ali, nas oficinas do Pouso da Palavra, mas ele se torna autônomo e se torna uma referência.
B. TSOKAS– Movimenta gente da região toda, a vir para prestigiar...
O. PINHO – Movimenta poetas de várias localidades do estado, e etc. e movimenta pessoas de diversos lugares que vem para cá. E isso não pode ser perdido, e pode ter uma solução de continuidade, as possibilidades que ele de ampliar esse leque de autores que podem vir para cá, gente de todos os cantos, de outros países.
B. TSOKAS – Nós que nos reunimos nesse projeto, temos interesse de participar também do debate sobre rádio, rádio difusão. Debater também como circular uma informação. Aí estamos lançando essas propostas, já temos umas poesias gravadas com os estudantes do nosso grupo em si. E estamos já pensando como lançar um sinal, como ter acesso a uma mídia, ao sistema de informação. E o lance da rádio-poesia em si é uma programação que agente encara como certa.
O. PINHO – Ah... certo... Uma rádio onde a poesia esteja... que tenha espaço aí garantido.
B. TSOKAS – Não menos privilegiada, e que tenha espaço na programação. Uma frequência e um espaço para o escritor, para o poeta também estar, divulgar sua obra.
O. PINHO – E manter seu diálogo com o público. É muito bom isso...
B. TSOKAS – A gente tá com experimentações com equipamentos, em estado experimental. Então se tiver alguma poesia gravada hoje para gente poder já editar ela... Legal.
O. PINHO – Experimentem, experimentem...
C. C. S. ALVARENGA – Orlando eu poderia ouvir de você acerca da renovação na arte baiana. Como você vê esse momento que a gente vive hoje, século 21, a poesia em descrédito com relação ao mercado, com relação ao poeta ter essa função um pouco mais prática ou objetiva na sociedade no sentido de que hoje o atrelamento da poesia com outras mídias, com tecnologia e internet, vários meios de reveicular a poesia (ou veicular a poesia) por outros artifícios. Como é que você essa reciclagem poética, que eu acredito que a gente vive hoje, para além de movimentos de escolas ou ismos e que é algo estrutural que de fato a poesia sente esse momento de desintegração tanto da própria estrutura da linguagem na construção dos poemas como sua obra é um próprio retrato desse fenômeno é um sintoma dessa manifestação. E assim, como é que a gente pode hoje pensar, ou vislumbrar, outra possibilidade de fazer poesia, de ser poesia hoje.
O. PINHO – Rapaz tanta coisa junta... muita coisa... a poesia hoje. O que é o contemporâneo, não é...o que é o contemporâneo!?.
B. TSOKAS – Produção atual.
O. PINHO – Rapaz tanta coisa aí junta. Muita coisa... Tanta coisa. Porque aí você toca na questão: poesia e mercado, toca na questão do que é a poesia hoje e a questão também: poesia e novas mídias. E o que é o contemporâneo... o que é o contemporâneo? (risos) É complicado... Nós estamos num momento de indefinição. O período é de indefinição. Talvez, entre muitos aspectos, de temperatura informacional um pouco baixa. Mas tem muita coisa acontecendo e muita coisa não catalogada. Talvez esse momento seja rico por isso, pelo fato de que você tem manifestações não catalogáveis não são muito categorizáveis. Eu inclusive trabalho o “coisaescrita”, tá muito nessa, dentro de um pensamento... de algo, não categorizável enquanto literatura. E quanto à questão das novas mídias, a questão não é se você usa a mídia... a questão não é da mídia, é de como você usa a mídia. Por que você pode usar as novas mídias de forma antiga, então você pode trabalhar com as novas mídias a favor das novas possibilidades de lidar com a linguagem. Nesse sentido, você tem que cavucar muito, para você não reproduzir, como o rádio e a televisão tentaram transportar modelos velhos para uma mídia nova. E o que mais... Mercado. Mercado é um problema. Porque 1º: poesia e mercado não estão de acordo, nunca. Poesia não é algo para mercado. Infelizmente a poesia, para entrar no mercado, para que a poesia chegue ao mercado toda uma produção espúria, digamos assim, tem que manter as editoras para que a editora possa editar, fazer uma edição de 2.000 mil, 5.000 mil exemplares de um poeta. E aí, talvez, o que seja rentável para as editoras seja a permanente reprodução, “remasterização” e relançamento dos chamados clássicos da poesia...
BRENO – Mais do mesmo...
O. PINHO – Quando se tem um poeta novo, desconhecido que é lançado no mercado ele vai... o consumidor, digamos assim, desse produto é um público muito estrito, pequeno e que não da lucro dentro da lógica de mercado. E aí, então isso, leva a uma outra discussão a pensar a sociedade que a gente vive hoje, o estado que a gente vive hoje, a lógica do capital
B. TSOKAS – As leis...
O. PINHO – A própria lógica do capital, as leis dentro da estrutura de Estado, cada lei, é apenas mais uma lei. Leis de incentivo, lei disso, lei daquilo, editais etc. etc.. Então são mecanismos compensatórios, alguns mecanismos que beneficiam essa ou aquela área da cultura, mas não abalam em nada nem só a estrutura do Estado nem a estrutura do Capital. Pensar hoje a cultura, também, é ter um pensamento político que possa provocar o choque entre o capital e o Estado e fazer com que ambos desmoronem.
C. C. S. ALVARENGA – Tomara que a cultura tenha esse poder...
O. PINHO – Tomara? Só não terá se não quiser...
B. TSOKAS – Cultura e política.
PARTE II
C. C. S. ALVARENGA – Nós levamos um tempo discutindo as problemáticas que existem hoje em torno do Caruru dos 7 Poetas, mas ao mesmo tempo hoje nós temos que também que pensar em tentar propor, tentar exercer de fato essa função de agitador cultural. Hoje, qual seria uma alternativa ao Caruru dos 7 Poetas que poderia ser desenvolvida também uma outra cultura de poesia?
O. PINHO – Todas as alternativas possíveis e imagináveis podem se apresentar. Quanto mais as coisas se tornem interessantes sem a ideia de não tirar o espaço de ninguém, mas de ocupar os espaços. Ocupar todos os espaços do centro, os espaços da periferia, dos salões, os passeios, os coretos...
C. C. S. ALVARENGA – Então a gente poderia vislumbrar, hoje, uma poesia itinerante na zona urbana de Cachoeira?
O. PINHO – Vislumbrar... Na medida em que as coisas as apareçam vislumbrar-se-ão, necessário fazer com que as coisas apareçam, movimentar-se...
C. C. S. ALVARENGA – Porque hoje já se pensa em certa medida nessa criação de atividades, que criem de fato um calendário, que criem uma grade cultural em Cachoeira mais especificamente...
BRENO TSOKAS – Que se tenha uma frequência...
O. PINHO – Não gosto dessa palavra grade que é utilizada no ensino e principalmente porque a gente repete automaticamente, grade curricular, grade isso, grade aquilo, fica preso ao pensamento um tanto ou quanto..., esse pensamento estatal, que ao mesmo tempo vem da visão fordista do mundo, as escolas tem essa projeção fordista, e também é a visão burocrática do Estado relativa ao ensino.
C. C. S. ALVARENGA – Chegamos à escola. A escola poderia ser esse espaço para começar desenvolver essas atividades artísticas?
B. TSOKAS – A escola no sentido formação.
O. PINHO – Na escola e fora da escola. Ocupar essa escola que tá aí mesmo, escola de ensino fundamental, de ensino médio, e superior, na medida do possível, mesmo dentro do Estado, fazer proposições que, em certa medida, possam acenar, possam apontar para o surgimento de uma outra escola, não esta que está aí. Onde a educação do sentido, seja algo que esteja nos fundamentos da formação do indivíduo não o mero apelo da formação para que o indivíduo entre no mercado de trabalho, mas, a educação dos sentidos, o indivíduo plenamente desenvolvido nas suas percepções numa compreensão inteiriça do mundo, numa compreensão abrangente e aí você tem sua sensibilidade tocada pelas percepções sonoras, pelas percepções visuais, pelo domínio da linguagem, e isso enquanto elemento estético, elemento de enriquecimento espiritual. E assim a preocupação, a importância fundamental dada ao desenvolvimento do ser, do indivíduo, e desse indivíduo, plenamente capaz de se apropriar, de criar valores, de criar conceitos, de ter capacidade de autonomia e que ele nesse movimento possa fazer surgir uma sociedade onde a autonomia individual e autonomia coletiva, e aquilo que chamamos de democracia, (que hoje é apenas um simulacro de democracia), que esse momento, essa comunidade possa vir... E outra sociedade que não seja essa que estamos vivendo aqui. Para isso os indivíduos têm que ter o pé dentro da institucionalidade e um pé fora também, ou seja, quem tiver pensando na cultura, também... Quem tiver pensando. Por que aí a gente vai pensar o que é Cultura, que só é pensada de modo estanque. Só se pensa cultura e educação de modo estanque e se diz: “educação para cultura”, “cultura para educação”, mas isso não é separado, você tem que pensar numa nova cultura humana, que abrange tudo. O homem é um produtor de signos, de significados, de objetos. Da mesma forma como se pode que se pode dizer que todo ato humano é poético, toda ação humana é política, toda ação humana é cultural. Agora você precisa ver em que faixa, para efeito de colocar as coisas em determinados nichos e escaninhos nós realizamos esse tipo de fragmentação onde colocamos cada coisa num lugar. Na ciência, nós colocamos cada coisa no lugar quando as coisas todas estão imbricadas, quando você vai ver para você compreender a totalidade da vida, você tem que tá com tudo ali casado química, física, matemática, biologia, domínio da linguagem. Como é que você opera nada, sem o pleno domínio da linguagem? O domínio da linguagem é fundamental, o domínio das linguagens, o domínio da língua ou da linguagem verbal, e o domínio das linguagens, toda a linguagem dos objetos, o mundo como linguagem.
B. TSOKAS – Por si só, produzindo seres...
O. PINHO – Porque você dá significado a tudo. Porque, é claro do ponto de vista do ser, que está em estado de a-ber-tu-ra, esse ser em estado de abertura presumivelmente teria uma possibilidade de extrapolar... Ao mesmo tempo em que o homem é um ser da linguagem, e o poeta é um ser da linguagem, quando no estado de abertura, quando ele ocorre, ele lhe coloca num estado que está para além, principalmente, para além da língua, que é o estado de descoberta, de invenção, é um algo que lhe põe além da língua, depois é que você traduz aquilo que você aprendeu, que você observou e dá um significado àquilo, você dá uma taxonomia.
B. TSOKAS – Então esse “estado de abertura” é muito aliado à ideia do gozo estético, do que Kant fala da “crítica ao juízo de gosto” que você tá desinteressado no ato e depois somente que você vai avaliar aquilo...?
O. PINHO – Não, não digo nem isso. Não passa pela avaliação, nem pela crítica do gosto... é tão aberto a tal ponto que certas questões de valor perdem o sentido... de você estabelecer análises e comparações. A quebra é você tá em contato com a coisa, de forma que as ideias não estejam aí a interferir na percepção, naquilo que você vê. E aí você perde até mesmo essa ideia, esse sentido de nativismo, você perde o senso de ter que categorizar as coisas em gênero, e ter que valorizar tal gênero, gênero isso, gênero aquilo... Porque, se você quebra com isso, não há necessidade de criar uma legislação para proteger isso, porque você já rompeu com isso, que necessidade você tem disso? Em que medida, quando eu me incluo dentro de um gênero, eu estou me libertando ou estou sendo capturado? Estou sendo objeto de manipulação?
B. TSOKAS – Você fica refém do seu próprio processo, você cria uma poesia com 4 linhas, depois letras isoladas, você tem a liberdade de criação, você tem sua liberdade de criação mas você fica preso ao processo de criação, os problemas da estética.
C. C. S. ALVARENGA – Fabricar o artefato. É a manufatura da matéria subjetiva. É muito mais complexo.
B. TSOKAS – Pensamos na arte como liberdade, mas a gente fica muito preso na criação...
O. PINHO – E a determinados modelos que rapidamente são capturados, que são reificados e estão retroalimentando o sistema monetário, retroalimentando o sistema de valores estabelecidos pelo capital.
B. TSOKAS – A gente tá na Universidade para isso produzindo técnica, conhecimento... e agora o que é que a gente vai fazer com isso?
JOHN CAGE – poeta, músico...
O. PINHO – John Cage (uma companhia) (Risos)
“Nossa poesia agora, nossa poesia agora é a consciência de que não possuímos nada, partindo daí tudo é um prazer já que nada possuímos e por isso não precisamos temer sua perda.” – John Cage.
“Numa sociedade onde tudo fosse de todos ninguém precisaria roubar ninguém.” – John Cage
“À medida que a gente caminha quem sabe uma ideia pode ocorrer neste papo. Eu não tenho ideia se virá uma ideia ou não, se vier uma legal, considere-a como algo visto momentaneamente, como se fosse de uma janela durante uma viagem. Se cruzando o Kansas, então, naturalmente, Kansas, Arizona. É mais interessante. Aceitar tudo o que vier, independentemente das consequências é ser intemerário ou estar cheio daquele amor que surge em harmonia com tudo.”- John Cage


