terça-feira, 12 de agosto de 2014

Banda Escola Pública, a estética contemporânea e o samba-fluxus.



Em Minas Gerais a Banda já esteve em Ouro Preto e Sete Lagoas e este ano voltou ao estado mineiro para se apresentar na capital, Belo Horizonte, no último dia 5 de julho durante o "Conexão BH". Mas não quero fazer notícia, e sim comentar sobre a estética na música contemporânea e de forma inevitável destacar a poesia que lhe é inerente.

"O índio se veste, o calor prevalece, 
e na igreja, beata faz prece. 
Nega o aborto, o casamento gay, 
profanador, em favor da lei...
O branco se mistura, o negro não se cala, 
o cana caceteia e vai te jogar na vala. 
Silenciando, o deus acuda, 
subindo o morro e a liberdade, muda" 

E.P- O Plano Cartesiano do Deus Enganador.


O trabalho do grupo, formado na cidade de Cachoeira-Ba, emerge sobre o contexto da formação de uma estética fluvial, como se observa nas obras de poetas locais como Damário da Cruz e João de Morais Filho, assim indico o surgimento do samba-fluxo enquanto a emergência de uma tecno-linguagem acústica, o encontro entre a modernidade musical, sob a forma da canção, e o seu presente polifônico, audiovisual, clipoema. Frente à uma noção, ainda comum, de arte -  "Cantar futura possibilidade o novo...a desenhar outra clarividência açoite..." - Manifestação atual da vida artística, da alquimia entre os bits e chips e a natureza poética organicamente musical da do Recôncavo da Bahia. 

TODO RISCO
A possibilidade de arriscar
é que nos faz homens.
Vôo perfeito
no espaço que criamos.
Ninguém decide
sobre os passos que evitamos.
Certeza de que não somos pássaros
e que voamos.
Tristeza de que não vamos,
por medo dos caminhos.

(Damário da Cruz)
Revela-se uma obra em par com a crítica especializada do Brasil e o gosto global. Apresenta-se uma nova realidade da música feita no país e na região. -  "Baseado nos fatos vou contra a cultura" - Leva em conta a poesia moderna e dialoga com tendências da música eletrônica.No contemporâneo sua forma é a expressão de uma linguagem ritmada a beira do estancar da síncopa e um retorno multi-rítmico de uma linguagem lírica e transtemática. Um leito onde o mar adentra e as ondas se desfazem entre as margens e alcançam a ponta de uma fera indômita represada – a estética multicultural.



A poética encontrada neste disco( Plano Cartesiano do Deus Enganador) é o espelho do processo de criação e expressão musical das formas de pensar e sentir a sociedade, ou melhor, fruir o tempo numa dicção própria. O lirismo pela dimensão estética da linguagem musical, a crítica social pelo contraponto das letras, estabelecido pelas canções do disco é de uma rara distinção.  - "Zona francarnaval, samba, futebol..."  - A gira, não preocupa-se tanto com o tempo ou um certo tema, mas sim ocupa-se da construção de uma linguagem tonal da música moderna revistada pelo contemporâneo, da forma que o objeto estético torna-se hoje realidade.

A centralidade criativa capaz de dar conta de uma esfera específica da linguagem enquanto campo da expressão, do modo como tornar lúcida e límpida aquela necessidade de dar forma a um todo imaginado de complexas formas sociais, culturais e políticas tradicionalmente modernas em vias de se pós-modernizar. Derivando assim do novo disco formas atuais para a compreensão de contemporâneos conteúdos e seus sentidos e significados.





Nenhum comentário:

Postar um comentário